quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Visita de Família [Parte 1 de 2]

(Um conto de Dom Quixote)




Ilustração: Rogério Nunes Borges


- Não sabia o que fazia ali, naquela balbúrdia! Barulho, muito barulho! Provavelmente era mais uma armação de Frestão, o feiticeiro, tramando contra os honráveis feitos que permeiam este meu destino de Cavaleiro Andante. Mais um ardil de meus inimigos para que eu não pudesse honrar minha amada, a doce e mais bela donzela de todas, dona Dulcinéia de Toboso. Meu pensamento também era tomado por outro problema: “Onde andaria Sancho?”. Meu fiel escudeiro deveria estar comigo. No entanto, exceto pelo meu altivo cavalo Rocinante, Dom Quixote de La Mancha, este que vos fala - conhecido sobretudo como “O Cavaleiro da Triste Figura” – estava sozinho. Perdido numa terra estranha, onde havia coches e grandes carruagens que andavam sem cavalos, talvez mais velozes que se eles realmente os puxassem. O barulho criado pela quantidade deles era ensurdecedor. Tal região não pertencia à Mancha, à Múrcia, ou a qualquer reino ou terra que pisara antes. Os habitantes locais, tenho certeza, nunca estiveram diante de um cavaleiro andante. Afirmo pela surpresa como olhavam-me e entreolhavam-se. Alguns admirados, outros temerosos pelo meu porte marcante, característicos de nós, verdadeiros nobres da cavalaria. Alguns poucos chegaram a agir de forma jocosa, fato cujo motivo até hoje desconheço. Quando andava num fraco trotar de Rocinante, tentando conhecer o local, o primeiro demônio cruzou meu caminho. Percebi o exato momento em que a besta ia atacar uma linda dama, que estava sentada em sua tenda de descanso ao ar livre. Pus a lança em riste e o adverti : “Infernal criatura! Infeliz hora em que cruzaste o caminho de Dom Quixote! Pela primeira e única vez!”. E desferi-lhe um golpe no meio de sua horrenda cabeçorra com face de peixe! A cabeça caiu para um lado e o corpo se estatelou de encontro a uma grande botija, que virou, derramando todo seu conteúdo. Pelo forte odor e consistência, percebi que o líquido tratava-se do lendário ungüento de Ferrabrás, um potente bálsamo, capaz de curar qualquer ferimento. Mesmo que um homem fosse retalhado em pedaços, uma única gota do ungüento de Ferrabrás seria suficiente para curá-lo – isto é claro, juntando-se todas as partes antes. A dama, que tomava conta do precioso remédio, ficou furiosa, berrando palavras incompreensíveis para mim. O demônio ficou todo encharcado, rapidamente voltou à vida. Levantou-se e veio em minha direção com uma fúria de mil homens. No caso, mil demônios. Uma legião deles cercou a mim e Rocinante. Desferi alguns golpes, tombando outros tantos, mas Rocinante derrubou os que fechavam seu caminho, abalando-se em disparada comigo no lombo. Logo não conseguia mais avistar os demônios, que deveriam agradecer ao meu altivo – mas temporariamente assustado – cavalo por ter adiado o destino de serem ceifados um a um pelas mãos de Dom Quixote de La Mancha! Depois de percorrer certa distância, quase sendo atingidos pela infinidade dos rápidos coches, chegamos a uma área mais agradável. Um lugar de frondosas árvores e pequenos campos de gramíneas. Aproximei-me de alguns habitantes daquele feudo. Eram de vestes simples e cabelos compridos, preparavam-se para uma refeição ao ar livre. Foram gentis, convidando-me a juntar-se a eles. Dividiram comigo suas poucas provisões. Agradeci solenemente, pois até o mais frugal alimento, para nós cavaleiros andantes, pode tornar-se um manjar dos deuses. Enquanto eu comia, Rocinante recuperava as forças com algumas frutas que meus anfitriões possuíam num alforje. Elas caíam das grandes árvores. Eu mesmo senti uma violentamente sobre o elmo, para a alegria de meus novos amigos, que desandaram a gargalhar. Feita a refeição, um deles pegou um pequeno artefato escuro. Uma pequenina chama apareceu em suas mãos e ele o acendeu, foi quando descobri tratar-se de algum tipo de fumo. Nesta lida de cavaleiro andante, ouvi falar sobre tribos que têm por costume acender um fumo da paz, um ritual de boas vindas para os viajantes nômades em suas terras. A recusa a participar por parte do visitante seria uma desonra ao povo hospitaleiro. Então, fiz como todos os presentes, que passaram o artefato de mão em mão, verti a minha fumaça da paz. Em pouco tempo, senti-me demasiado estranho. Meus movimentos ficaram lentos e comecei a balbuciar palavras sem sentido. Tudo ao meu redor envolveu-se numa atmosfera bruxuleante. “Maldição!”, pensei. Os feiticeiros enganaram-me novamente. Provavelmente Frestão e sua corja estavam por detrás disso. Disfarçaram-se de jovens amigáveis para capturar-me e impedir a continuação dos atos heróicos dos cavaleiros andantes, que hoje ecoa através dos passos de Dom Quixote. Concluí meus pensamentos quando uma incontrolável sonolência abateu-me. Sem dúvida, a morte pairava sobre mim, e comecei a enfrentá-la: “Que venha, morte indigna. Que injustiça, morrer assim, vítima de uma trapaça em terras desconhecidas. Que tristeza não poder ver pela última vez a silhueta celestial da delicada Dulcinéia. A partir de hoje, minhas aventuras ecoarão somente na eternidade, na memória daqueles que presenciaram ou ouviram os feitos do Cavaleiro da Triste Figura, Dom Quixote de La Mancha”. Cambaleante, caí na grama a esperar meu derradeiro suspiro...

5 comentários:

mimi disse...

ADOREI O BLOG É DEMAIS!!!!!!!!!!!!!!!!!!!1 AMEI OS GUADRINHOS O DESENHO,"AMO DESENHO ANIMADO"TBM DO DIÁLOGO, PASSAREI AKI SEMPRE.. TE BOTEI COMO LINK NO MEU BLOG, BJOSSSSSSSSSSSSSS

crisblog disse...

Ôba...fiz o mesmo!

Peguei a sugestão no Juca(Quinta Emenda).

Linkei você !

Beijos. Parabéns !!!!!

Anónimo disse...

Muito bom, bem criativo. Particularmente, eu optaria por "quebrar" o fluxo contínuo no "monólogo" do cavaleiro em parágrafos para evitar o risco de eventual cansaço. Mas compreendi o sentido da opção adotada em seu estilo. A diegese textual ficou maravilhosa e a fina ironia bem-humorada tem um quê de "Uma Confraria de Tolos", de Toole. Abraços!

Paulo disse...

Pois é, fui fazendo e acabou assim. Cansa mesmo, mais ainda na internet - em livro teria melhor efeito. Obrigado por ter lido, anônimo. Um abraço. :)

Anónimo disse...

Paulo, o que é diegese do texto, meu deus??? reli quatro vezes e não achei esse negócio ai.

Abs.