segunda-feira, 17 de outubro de 2005

O Legado DNA - Capítulo - Dona Teodora

Dona Teodora já tem 88 anos. Ela costuma ficar na porta de casa, onde passam os transeuntes, quase todos seus netos postiços. Muitos a chamam de vó, alguns até tomam sua “bença” – coisa que eu, neto original, dificilmente faço.
Pela idade, ela anda fazendo confusões, esquecendo coisas, às vezes agindo que nem a Dori (peixinha do “Procurando Nemo”). Meu irmão diz que deveríamos levar vovó até a praça e cobrar um real em cada história que ela contar às pessoas. Ela é a última dos pais de meus pais vivos. Ela é um documento vivo, mas hoje em dia sua memória já não pode ser chamada de fonte primária para uma pesquisa em que estaria em jogo o futuro da humanidade. Sempre que coloco música para tocar, uma hora ou outra ela dirá com um sorriso: “O teu avô gostava que só desta música”. Considerando que meu avó morreu há 23 anos e que a canção em andamento é de 2001, penso que qualquer dia não me surpreenderia dela dizer o mesmo enquanto ouço "Quens of the stone Age".
Minha avó é assim, hoje em dia eu sei exatamente seus passos diários pela casa (agora ela anda com o seu radinho, que emite luzes, debaixo do braço), além de inúmeras histórias repetidas, com pequenos detalhes diferentes, e contadas com entusiasmo de quem revelará um segredo pela primeira vez.

Tem aquela do seu cachorro branquinho, o Piquixito (este era o nome do canino, é minha avó mesmo). Ela acordou cedo para acompanhar o Círio de Nazaré e Piquixito a encontrou no meio da multidão. Este Piquixito era mesmo foda, alías, os animais que aparecem nas histórias da minha avó é que são. Tanto que a minha favorita é esta:

Em algum lugar, uma moça estava sozinha em casa com um cachorro. Ela estava fazendo farinha e o cachorro não parava de olhar para ela. Impaciente com o olhar pidão do animal, a moça fala irritada:

- O que é cachorro, tu queres farinha?
- Não, eu não quero! – o cachorro responde com desdém.

A mocinha cai mortinha no chão. Fim.
É verdade que às vezes ela não mexia com farinha, estava cozinhando alguma coisa, mas isto tem que ser tão irrelevante quanto o fato de não existirem testemunhas para o causo, já que ela estava sozinha com o cão e não sobreviveu para contar. Para não estragar a história da vovó, e agir como os que já sabem o final de uma piada e tiram todo o tesão do contador, eu simplesmente nunca perguntei se foi o próprio cão que lhe confessou o crime...e não me surpreenderia se o fosse.
Dona Teodora é aquela que todos gostam de chamar de vó e é dela que herdo a habilidade de contar histórias – o cerne de minhas capacidades jornalísticas, quadrinísticas e piadísticas. Espero um dia ser tão bom quanto ela.

Dona Teodora e o pequeno "Duque", um de seus confidentes, em 1990.

2 comentários:

Anónimo disse...

MUITO BOA.

Luana D'Antona disse...

Nossa... eu também tenho uma vózinha, de 99 anos, que volta e meia vem com umas histórias aí... sabe Diou, adoro os idosos, e a minha vó então, nem se fala!!!! Gostei da idéia de tu falares sobre a tua!!!
um beijo!