segunda-feira, 20 de julho de 2009

Cotidiano Talesiano

“Ele a viu quando ela atravessava a Lexington Avenue, vinda da Bloomingdale’s, e logo se pôs a acompanhar os seus passos. Ela passou pelo quiosque do metrô, passou pela catraca e se postou na plataforma, entre uma máquina de chicletes e o enorme pôster de um homem de sorriso arreganhado que conseguira um emprego por meio de um anúncio no New York Times.
A moça teria uns 25 anos. Tinha pernas compridas e bronzeadas, cabelos loiros curtos e puxados displicentemente para trás – talvez com os dedos. Trajava um vestido amarelo simples, luvas brancas, e estava sem maquiagem. Seu corpo era esguio e anguloso. Era o tipo de jovem que se vê no East Side, fazendo compras na Bloomingdale’s, saindo de delicatessens caras, carregada de sacolas ou indo para a casa de ônibus, pela Fifth Avenue, depois do trabalho. Essas jovens costumavam evitar o metrô, mas vez por outra se enfiam nele, e quando ela entrou, ele a ficou observando.”


Ele a viu assim que subiu no ônibus. Sentada, com o lugar vago ao lado. Cabelos lisos até os ombros. Ruiva. Articialmente ruiva como quase a totalidade de ruivas naquela cidade. Era bonita, com um ar distraído e amigável. Vestia uma blusa branca com um desenho indefinido, que lembrou algo escolar. Poderia ser uma estudante, carregava algum material, papéis. Da idade, não fazia idéia. Há muito ele perdeu a habilidade de estimar a idade pela belezura das mulheres. Nesse mundo de
meninas criadas com alimentos transgênicos, ela poderia ter 25 ou 17 anos fácil. Tão fácil quanto os problemas judiciais acertando a última. Mas ele é inocente demais para imaginar uma aproximação que levasse a isso. Aliás, qualquer aproximação casual.


“Outros homens também a olhavam. Certamente a moça tinha consciência disso, mas não passava recibo. Fazia parte do jogo. Os homens tentavam ser sutis, andando na plataforma fingindo indiferença, vez por outra observando a imagem da moça refletida no espelho da máquina de chicletes. Muitas vezes eles se surpreendiam uns aos outros nesse jogo, e às vezes trocavam um sorriso torto. Às vezes se recompunham, assumindo uma postura altiva. Quando o trem chegou, ele a seguiu, mantendo-se alguns passos atrás dela, e a viu sentar-se do outro lado do corredor, os joelhos bem juntos, as mãos enluvadas recatadamente pousadas sobre o colo, os olhos azuis inocentemente fixos em frente.
O trem começou a ranger os trilhos, rumo à Fifth Avenue, as luzes do túnel escuro passando rápido, uma senhora gorda com uma sacola da Macy’s balançando sem parar, os homens espiando a moça bonita por cima dos jornais; ela não ousava olhar para eles – para não estragar a imagem da inocência no metrô.”

Sentou-se ao lado dela. A ruiva já o percebera bem antes, do corredor ao pedido de licença para sentar-se. Ele quis olhá-la de perto, mas era meio constrangedor virar o pescoço 90º para fitá-la. Então, fez isso com cuidado umas duas vezes, percebendo que ela também era uma graça de perfil. A observação foi distraída pelos cumprimentos de um artista de rua. No meio do coletivo, um rapaz avisou a todos que tocaria umas canções, em troca de alguns trocados de coração. Ele pegou seu violão e sentou-se atrás do casal de desconhecidos.

“Se ao menos acontecesse alguma coisa – se ao menos o trem tivesse uma pane, se as luzes se apagassem, se a mulher gorda caísse - , haveria um pretexto para falar com aquela deusa sentada a um metro e meio de distância, do outro lado do corredor. Mas nada aconteceu.”


Assim que o rapaz iniciou o show, imerso no citadino daquele ônibus de tantos anônimos, a garota reagiu muito bem à musica. Ensaiando uma pequena percussão, chegou a bater acidentalmente com uma das mãos no ombro de seu parceiro de viagem. Desculpou-se sorrindo, o que ele prontamente correspondeu meio sem graça. Quando o violeiro começou a terceira canção, percebendo que a ruiva cantava baixinho pedaços de uma música que ele sempre quis saber a autoria, o passageiro resolveu perguntar à moça.

Mais do que descobrir que ela não fazia idéia de quem era a música, descobriu também que iniciara um contato casual, destes que não acontecem nunca entre garotas bonitas e tipos tímidos como ele. E então, depois de mais algumas perguntas, ele cessou. Um teste da sua natureza isenta de enxerimentos e tentativas forçadas de entrosamento. E foi aí que ela começou a falar mais ainda, como se quisesse romper a barreira de qualquer silêncio que impediria risos, revelações e propostas indecentes – ou as três coisas. Ela sorria e era agradável, e seu interesse na conversa aumentava à medida que o ônibus se aproximava do destino do rapaz ao lado. Então, aproximando-se do ponto de chegada e pensando num compromisso que teria logo mais, de súbito, ele despediu-se dela. A moça disse, “
Vai não, fica aí!” – queria que soasse como brincadeira. Uma dessas brincadeiras que todo mundo implora para acontecer.

Como se quisesse desafiar a sorte, o tempo, ele despediu-se dela pela segunda vez. Fez isso sem pedir algum contato ou possibilidade de um novo encontro - como se preferisse abusar do acaso e as boas novas que ele pode trazer. E a ruiva disse, agradável como sempre,
Tá bem. Até a próxima.”

"O trem seguiu em frente normalmente, como sempre acontece quando a gente não quer que seja assim.

Parou na Fifth Avenue.
Depois na Forty-Ninth Street.
Depois na Forty-Second Street, e então a jovem levantou-se rápido, firmou-se no balaústre por um instante e se foi – como todas as garotas encantadoras e atraentes que ele vira em Nova York; com as quais nunca falara, e que ele provavelmente nunca mais veria.”


Ele desceu do ônibus com passos duvidosos, sem olhar para trás. Na mochila, uma edição de
Fama & Anonimato, de
Gay Talese. Mais tarde iria descobrir que o compromisso que teria "logo mais" seria adiado e que, de alguma forma, a situação foi influenciada por um dos capítulos do livro. Foi uma atitude muito Gay Talese. Aliás, uma atitude muito gay mesmo.

Tsc..tsc..tsc.. mas um dia ele aprende...


3 comentários:

:::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::Anderson Araújo disse...

excelente, excelente.

Mas.... CARAI, VÉIO. O CARA DO GIF SE FODEU MERRMO.

HAHAHAHAHA.

H. Ribeiro disse...

Sabe quando fica qual uma espinha de peixe que engata na tua garganta, engoles mas vira e mexe arde de novo? Teu texto tá assim, me atormentando desde ontem. Uau.

p.nazareno disse...

que nada, helem. eu escrevi tudo isso somente para fazer o trocadilho final com o nome do Gay Talese. (: