quarta-feira, 3 de maio de 2006

Uma saga sangrenta – Parte 2 de 2

Chegamos ao Hemocentro da Cidade. Num guichê, você diz para quem veio doar, ou se veio voluntariamente, ou ainda por pura diversão...porque alguém lhe disse que doar sangue dá barato! Antes do esperado encontro com a agulha, participamos de uma consulta. A médica lhe fará perguntas normais, não precisa ter vergonha, não é nada que a sua mãe não perguntaria: se você recorre aos serviços de prostitutas, se você dá a bunda...essas coisas. Enquanto pergunta ela fura seu dedo para testes de diabetes e tira a sua pressão, é preciso ser uma profissional safa para realizar estas tarefas todas ao mesmo tempo. Eu quase tive os meus planos de doar sangue frustrados por causa do quesito “Hepatite”. Eu tive hepatite há um século atrás, e só lembrava porque eu tomava uma lata de leite condensado inteira nesta época (qual é a relação com a hepatite? Sei lá, pergunte a um médico). Bem, passei, a doença ficara para trás há muito.


Sim, até velhas americanas feias doam sangue!

Enfim, a entrevista termina e apenas mais uma coisa o separa da sala de doação: dois copos de suco artificial de sacarose elevada a enésima potência. É para garantir energia, caso você não tenha ido bem alimentado.

Ver a sala de doação, com suas cadeiras parecendo as de dentistas, o kits individuais com bolsa, mangueirinhas e agulha com capa e tudo...foi como me preparar para um cápsula criogênica que só seria aberta daqui a 30 anos. Isso é que dá ter visto toda a série ALIENS durante a formação do intelecto, se é que há algum.

A empolgação atingia a níveis intergaláticos, parecia que se eu não doasse pelo menos uns dez litros de sangue naquele instante não existiria outra saída a não ser ver TITANIC sucessivamente pelo resto da vida. Eu era praticamente um clone que foi gerado para ter todo o fluido que corre nas veias reaproveitado. Nenhum resquício do menino medroso apareceu, nem mesmo no momento crucial, quando a capa da agulha é retirada e percebo que ela parece uma antena de TV vazada. De qualquer forma, é tarde demais. Você entende porque a capa não é transparente, mantendo em segredo toda a agulha...e sua espessura.

Diante de meus olhos imóveis, ela entra macio como se não fosse sólida. Eu poderia jurar que senti mais o furo no dedo para o teste de diabetes. Desvio o olhar para a mangueira e nenhum sinal dela ficar vermelha. Tudo estaria bem, exceto pelo fato do sangue não fluir...

A enfermeira olha para mim, respira fundo, movimenta a agulha e a enfia mais fundo. Imediatamente, agulha, mangueira e bolsa começam a sua missão, receber meu manjado exemplar de O+, mas nem por isso menos importante. A moça sorri:

- É que a sua veia é profunda...e ela dança.

Além da agradável sensação de ajudar ao próximo, ainda descubro que ao menos uma parte do meu corpo sabe dançar. Nossa, isto está ficando cada vez melhor.

Em mais ou menos 40 minutos, eu deixaria 460 ml de sangue ensacado e infindáveis miligramas de medo para sempre.

Na saída: suco, maçã, sanduíche, sopa e pensamentos para o que me aguarda no futuro: tatuagens com bambu, ritual da suspensão, autofragelação nas Filipinas...

Se tudo der certo e meu exame não acusar “sangue cazuza” daqui a três meses poderei doar novamente. Se você está imaginando que este é o momento em que direi “Sim, doe sangue e salve uma vida!”, engana-se completamente. Não agirei como crentes e drogados, ou drogados que viraram crentes, que sempre querem convencer os outros a entrarem em seu clubinho. Afinal, o sangue é seu e você faz o que quiser com ele. Mas a verdade é que realmente há carência nos bancos de sangue pelo mundo afora. O mesmo não acontece nos bancos de esperma, afinal... punheteiros é que não faltam neste planeta.


Porra, até palhaços doam sangue. Você realmente vai ficar por baixo nesta história?

Meninas boazinhas que pesam mais que uma saca de cimento e você rapaz, que não menstrua, e quer saber como é perder sangue na vida... dirija-se ao HEMOPA – Av. Serzedelo Corrêa, esquina da Caripunas. De 8:00 às 17 horas, de segunda a sexta. Belém-Pa.

Uma canção, “I believe in love" (Nika Costa).

4 comentários:

heloisa disse...

Eu quase tive a impressão que o Hemopa te pagou...
eu sempre quis doar sangue.. mas não alcanço o peso mínimo..
bj

paulo nazareno disse...

Olha, eu não sei se tem esse negócio de peso mesmo, disse apenas porque gosto da relação com a saca de cimento. Mas em todo caso, coma um montão de brigradeiros e depois vá lá. :)

Fernanda Melonio disse...

Porra, Paulo, eu peso menos que uma saca de cimento tb! Bem, na verdade não sei quanto pesa uma saca, mas sei que o peso mínimo requerido pelo Hemopa é de 50kg, e eu tô quase chegando lá...

alemòn disse...

...a sopa de lá já matou minha larica, flipper e ganja na Batista Campos dá nisso.