segunda-feira, 1 de maio de 2006

Uma saga sangrenta – parte 1 de 2

E naqueles dias em que me recuperava da distensão causada pela fórmula: garrafão de 20 litros d’água + sedentarismo + atividade súbita e forçada, eu estaria diante de mais uma artimanha da hipodermia – uma estratégia de eufemismo na medicina, palavra escrita na porta da sala em que você tomará injeções, entrará na agulha, tomará na bunda...literalmente em alguns casos.

Às vezes você deseja fazer coisas na vida, mas sempre vai deixando para depois. Sua vontade em realizar o feito desaparece mais rápido que veio. A falta de motivação e empolgação são um dos principais fatores para isso. Quando se é criança é mais fácil:


- Vamos queimar formigas com embalagens de desodorante derretida?
- Por que?
- Por que é muito divertido!!!
- Vamos!!ÊêêÊhh!


A diversão certamente é interrompida quando uma gota de plástico derretido acerta seu pé, mas você estava empolgado o suficiente 10 minutos atrás com a nova brincadeira!

Definitivamente campanhas não são tão persuasivas ou eficazes. Parece que quanto mais campanhas do tipo “álcool e volante não se misturam” mais aumenta o número de putos causando acidentes completamente embriagados. Ou ainda, as meninas do bairro continuam aparecendo grávidas, quando camisinhas com a tarja “venda proibida” descansam em postos de saúde. Antes que você comece com aquele papo de que isto é um pobrema social e se pergunte “onde é que este gordo quer chegar?”, eu digo: Foi preciso alguém próximo precisar para eu doar sangue. Sim, Dona Antônia, empregada da casa de meus pais (“secretária do lar” para as pessoas frescas que têm raiva de pobre) precisou fazer uma transfusão para que eu lembrasse que uns 5 litros de sangue percorrem meu corpo todo dia, e que posso me desfazer de um pouco dele para ajudar outras pessoas.


Até mesmo grandes líderes mundiais doam sangue

Doar sangue pode ser algo que já faz parte da vida de muitas pessoas, digamos, doadores natos e profissionais, mas para mim seria um grande salto. Primeiro, pela aversão a agulhas. Eu tinha calafrios na simples suspeita da possível chegada da sombra do Fura-Dedo*, agente de saúde. Segundo, por ter veias invisíveis e más experiências com profissionais e suas respectivas injeções.

E naquela tarde estava decidido. Sairia com meu irmão, doador antigo, e não voltaria até ter enchido uma bolsa com meio litro de meu líquido vital e escarlate. A esperada empolgação irradiava por todo meu corpo, nem parecia que foi o mesmo garoto que um dia se trancou no quarto com medo do Fura-Dedo.

* Agente de Saúde no controle da Filariose. Chegava sempre à noite com sua pastinha com lâminas de vidro e agulhas para furar o dedo, o que lhe rendeu o singelo apelido. Figura lendária, que muitas crianças gostariam mesmo que fosse lenda. Jason, Freddy Krugger, Cuca? Tsc, tsc, tsc ...o terror da infância mesmo era o Fura-Dedo.

Uma canção, “Thirty-Three" (Smashing Pumpkins).

Sem comentários: