segunda-feira, 17 de abril de 2006

"V de Vingança", de James McTeigue


### por Sepúlveda "V" Gerardo ### Sepúlveda Gerardo é um velhinho que agora quer ser um vingador mascarado.

Não sei se concordarão com este escriba, mas na tela grande V de Vingança faz os olhos marejarem água e sal, traz a semente de la revolución guardada no peito de cada um e nos obriga a lamentar que somente o cinema é capaz de tornar palpáveis, críveis, histórias tão lindas, fantásticas, tão profundamente tocantes, tão visualmente perfeitas! Quedo minha pena ácida, minha verve incendiária, meu legado acre, para me render ao vingador que tornou sua dor na liberdade de um país inteiro. E vos digo, abrigado nas noites das fogueiras, "lembrai, lembrai do 5 de novembro...".

Onde eu estava nos últimos 24 anos que não comprei a história de Allan Moore??? Não li o quadrinho, sinceramente! Me perdoem, foi sem querer! A um velho é sempre mais difícil dar trela a rabiscos! Sisudos, gostamos mais de jornal, livro velho, mafuás, palavras cruzadas, baralho, mulheres renascentistas, cinema vá lá! Não é costume, não faz o menor sentido, procurar beleza num objeto comprado na esquina, tão vulgar, e que serve de almoço às traças! Engano, infeliz engano! Aos que leram, minha inveja e congratulações! Aos que não leram, meu pesar e meu contentamento de que não fui eu o único tolo!

Quando soube que os tais irmãos Wachowski estariam envolvidos no projeto, pensei que o filme estaria perdido! Mas, um erro! Pouco se nota a presença dos que ganharam fama com a malfadada saga Matrix. A não ser por uma cena em que V diz com propriedade "Depois que descarregaram suas armas, vou acabar com vocês no intervalo que usaram para carregá-las". E assim o faz contra um grupo de uns 15 capangas, no melhor estilo câmera-lenta-misturada-com-efeitos-que-todo-mundo-já-usou. Nota-se menos ainda, por razões óbvias, que o ser humano atrás da máscara de Guido Fawkes, extremista católico atuante no Reino Unido, no século XVII, é o ator australiano Hugo Weaving. Também conhecido por ter feito o agente Smith, uma das drags de Priscilla, a Rainha do Deserto e o mais-que-fodão rei dos elfos em Senhor dos Anéis. Pois é. Ele é o V. E por sinal fez um trabalho incrível.


Sim, tal qual em “Sexta Feira 13”, também temos nosso cara de máscara doidão

Longe dos malditos clichês dos filmes de mascarados, o personagem não mostra o rosto em momento algum, não se revela fisicamente, nem no grand finale. Mas, há beleza naquela cara que sorri o tempo inteiro num cinismo irritante. Weaving consegue mostrar a tristeza, a alegria, a dor, o desespero, a obsessão de V, mesmo com as expressões da face escondidas. E, antes que me acusem de paneleiro, viado ou qualquer outro adjetivo ofensivo, a beleza que menciono está na integridade daquele homem mutilado, que ao se esconder, se mostra ainda mais, expondo força e cérebro, numa empreitada digna de um exército de 500 mil Osamas. Sim, ele é um terrorista. E torceremos para que suas maldades pessoais sejam levadas até as últimas conseqüências. Depois que o mundo passou a ser governado por um, todos nós podemos, hora ou outra, nos tornarmos um amante do terror!

Mas, os conservadores devem se acalmar. Se violência gera violência, V prova que a destruição, o mal em si, pode ser usada para o bem! Insistindo com palavras, aparições na TV e a arte das adagas, ele promete fazer voar pelos os ares o parlamento inglês, uma piada de mau gosto encravada numa ditadura inglesa futurista em que o chanceler é John Hurt, um dos grandes atores veteranos. Durante a sessão juro que confundi o velho com Ian Mckellen, o Gandalf. Sorry, mister Hurt! O senhor merece toda minha deferência! Grande atuação, que como não poderia deixar se ser, tem a essência dos grandes ditadores, como Hitler e vários filhos da puta que fizeram deste mundo um lugar bem pior pra se viver!


Sim, tal qual em "Alien 3" também temos nossa mulher careca

O que mais impressiona no filme é o carisma de V, a poesia de seu discurso, o estilo teatral e eloqüente em acabar com quem lhe tirou a vida em sucessivas experiências científicas mal sucedidas. E como num jogo de xadrez, ele vai atrás dos algozes, que estão alojados em castas da mais alta estirpe, dando fim neles, um a um. Todos representando um poder que eu, você que lê este texto, nós enfim, já pensamos em mandar pelos ares. A diferença de V é que ele consegue. E lindamente, sem perder a pose de esgrimista e romântico! E, em sua sanha, de lambuja ganha uma mulher linda, simplesmente Natalie Portmann, que lhe admira, que lhe ama, que lhe quer, que até beija sua boca desfigurada por cima da máscara! Mesmo a sacaneando da pior maneira possível, ele a faz ver a verdade. Explica pela experiência que quase nunca se deve ser bonzinho para mostrar o correto e ainda que sofrimento deve servir para outra etapa da vida, não mais aquela de dor e desgosto!


Sim, tal qual “Buttman em Budapeste” também temos mulher bonita e nua...uma pena esta cena não estar no filme!

O filme é amplo em significados, tem tantas nuanças belas sobre política, sobre a liberdade e sobre o amor, que teremos que ver não uma única vez, mas, duas, três, quatro quem sabe, para extrair ao máximo o que ele possa nos dar. Vá sem medo! Se não puder, aguarde até chegar às locadoras. Porém, não perca! A película é tão boa que responde até a pergunta do cantor maranhense Zeca Baleiro: "por onde andará Stephen Fry?".

O ator inglês, ícone das minorias européias, está lá, vivo, num apresentador de TV reprimido, porém consciente de tudo, com sede de derrubar os imundos que se apossaram da única coisa que não poderia ter sido roubada do povo. Ele também é o V de alguma maneira. Aliás, como disse Evey Hammond, a personagem de Portmann, respondendo sobre nosso herói: "ele é meu amigo, meu irmão, meu pai. Ele é Edmund Dantes*, ele sou eu, é você, somos todos nós".

"V de Vingança" redime a obra de Alan Moore para o cinema depois que a "Liga Extraordinária" causou o estrago que causou. Por fim, informo que se alguém estiver por acaso pensando em presentear este velho, nestes tempos difíceis, a sugestão é o quadrinho que gerou o filme. Juro que prestarei mais atenção em libelos do gênero! E, por favor, "lembrai,lembrai do 5 de novembro..."


Apesar da maior pagação de pau encontrada neste site eu ainda acho todas as adaptações das minhas histórias para o cinema uma grande merda!” (Allan Moore)

* "O Conde de Monte Cristo", filme mais bacana para o V!

Uma canção, “Nós Dois” (Tadeu Franco).

5 comentários:

paulo nazareno disse...

Rapaz, eu só não digo que sou afim da Natalie Portmann desde O Profissional porque ela era uma criança e isto seria pedofilia. Mas da vontade de casar com ela no Hora de Voltar. Do jeito que escrevestes, se não assistirmos ao V de Vingança não restará outra coisa a fazer a não ser matar toda a família e depois cometer suicídio...hahah

Gustavo Daher disse...

Realmente o filme também superou minhas expectativas. Tem uma outra besteirinha ali e acolá, não é 100% fiel ao gibi mas o que importa é que o resultado ficou supimpa.
Aquele filme da Liga Extraordinária é uma bela duma bosta.

Anónimo disse...

fala joe,
Não assinti ainda esse filme, mas vou dar uma olhada e depois te conto o que achei...

Beijos da tua menina elis

paulo nazareno disse...

Sim, realmente gostei do filme, Sepu, meu velho! Tanto que só não gostei de uma única coisa: aquela franjinha do V!! Vai até a Natalie careca, mas a franjinha do V é foda! :)

Sepúlveda Gerardo disse...

Ora, pois! A franjinha serviu para não deixar nosso herói com cara de índia velha albina! Já pensou numa peruca com o cabelo escorrido lhe caindo as ventas? Fora que atrapalharia os movimentosc com as adagas!

Foi uma saída digna, acredito eu!

Cordialidades!