quarta-feira, 5 de outubro de 2005

Quem mexeu no seu queijo? Foi o Mário, aquele que te...

Meu tio trabalhava muito, nunca tinha tempo pra nada porque sua empresa tinha que vender 40 caminhões por ano. No Natal de 2004 ele teve um infarte e agora está igual à Alça Viária: com 4 pontes...de safena. Uma infecção no pós operatório fez a sua recuperação ser bastante lenta e com que ele estivesse de volta ao hospital próximo a fazer um ano de cirurgia. Eu era o seu acompanhante naquela tarde, quando avistei um pequeno livro azul que ele acabara de ganhar.

Ele não tinha lido, estava ocupado demais com coquetéis de soros e outras artimanhas da hipodermia. Após a simples apreensão do título, passei para o primeiro capítulo, sem ligar para as orelhas de capa, prefácios ou nome de autor.

Começa com uma reunião entre antigos amigos de colégio. Todos estão vivendo suas vidas de alguma forma: empresários, jornalistas, acompanhantes de luxo e outros. Alguns exprimem suas dificuldades pessoais ou financeiras até que um deles, Michael, decide contar-lhes uma história que certamente mudará suas vidas. É aí que começa a melhor parte, ou pelo menos, a menos pior. É a hora da parábola, em que 2 ratos e 2 homenzinhos vivem num labirinto em busca de queijo. O legal é que apesar da notável diferença das espécies, os ratos possuem síndrome de Stuart Little e os carinhas engoliram pílulas de nanicolina do Chapolim, e todos usam roupas e tênis de cooper.

Os ratinhos, Sniff e Scurry, saem todos os dias procurando queijo pelos corredores do labirinto, assim como a dupla humana, Hem e Haw. Um belo dia, os homens encontram uma mina de queijo, suficiente para alimentá-los aparentemente para sempre. A esta hora, você começa a perceber que o queijo da história é uma metáfora para diversas coisas nas mais diversas situações da vida: o prêmio da loteria acumulada, uma encarnação de supermercado grátis, um vale eterno para rodízio de pizza, uma namorada apaixonada e pompoarista...qualquer coisa.

Como espertos que são, os humanozinhos decidem morar perto da mina, afinal, encontraram uma vida farta e segura. Guardam suas roupas de corredores e aproveitam a vida que pediram a deus. Em algum dia eles acordam e percebem que o queijo havia desaparecido. O primeiro pensamento de um deles foi “Puta que o pariu, agora fudeu tudo! Quem mexeu no meu queijo?”. É claro que apenas o trecho depois do ponto de exclamação é que aparece no livro, mas foi isso mesmo. Diferente dos homens, os ratinhos não pensam muito nessas questões filosóficas. Quando não encontram queijo, simplesmente continuam correndo pelos corredores desconhecidos até encontrar um novo. Aí está o ponto, Hem cai na frustação e se envolve em questões do tipo “Isso não é justo!”, resolve continuar no lugar pensando no que aconteceu e na esperança de que alguém coloque o queijo de volta: vai ganhar na loteria várias vezes como o João Alves (lembram desse?), o supermercado pega fogo e pode ser saqueado, o dono da pizzaria muda de idéia e lhe devolve o vale, a sua namorada bonita e pompoarista volta para seus braços e por aí vai.

Diferente de Hem, Haw aceita a mudança e resolve se aventurar no labirinto desconhecido a procura do novo queijo. Nem é preciso dizer que Haw certamente será bem sucedido por ter aceitado a realidade crua e ter perdido o medo de mudar as coisas: joga fora todos os bilhetes de loteria, vai trabalhar como caixa no supermercado, pára de frequentar rodízio de pizza e é cantado por uma cliente frequentadora da Carmem Academia e adepta do tantrismo.

Terminada a parábola psicodélica (imagine os ratos de tênis correndo por um labirinto infinito)o livro volta para a reunião de amigos e estraga tudo: eles começam a falar sobre a história, usar o que aprenderam em sua vida e ramo de negócios, coisas do tipo, “Se eu tivesse agido que nem o Haw, minha esposa não me pegaria com a secretária”.

É isso, o livro descamba para o seu gênero de real intenção, apreciado por 99,9% das pessoas amantes de novela e que vão ao cinema assistir a filmes do Tom Hanks com a Meg Ryan: Auto-Ajuda.

Spencer Johnson, o autor, grande expoente do ramo de negócios, é conhecido por este e outros best-sellers de mesmo quilate. O livro vende que nem caipirinha em festas da universidade, já está em sua versão para jovens (imagina as questões existenciais deste)e desenho animado.

É, políticos desviando dinheiro que poderia ser investido em educação e segurança, árbitros sacaneando com uma galera que é apaixonada por futebol neste país, o governo investindo em referendos hipócritas com propagandas em que José Mayer (que além de pegar todas as mulheres nas novelas, provavelmente deve morar num condomínio fechado com segurança máxima) praticamente aponta uma arma para que as pessoas votem a favor da proibição do comércio de armas...eu não consigo mais me indignar com nada e acaba sobrando para autores que tentam ganhar a vida escrevendo besteiras para as pessoas se sentirem mais felizes e confiantes.

No livro está escrito alguma coisa do tipo “Uma leitura rápida mas que deixa lições para uma vida inteira”. A lição é simples: estes livros de auto ajuda só ajudam seus autores mesmo. Mas isso eu já sabia, tanto que em breve retornarei ao meu projeto “Como escrever livros de auto-ajuda”, mas por ora, eu escolho continuar pobre mais um pouquinho.


Versão em desenho animado: passe para os funcionários da sua marcenaria e todos trabalharão em harmonia, ainda que um deles perca a mão na serradeira elétrica.

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